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I have a bad feeling about this”, pensou.

O meu coração sobressalta-se, preciso escrever, escrever. É perigoso quando escrevo por pura necessidade. As verdades são mais nítidas, nada é fantasiado, não há personagens, não há enredos, não há segredos fechados em baús. E estou profundamente, profusamente triste. Confusamente emocional.

What else is new”, perguntou-se.

Quem me dera poder mudar, já o disse tantas vezes. Sem conta, peso e medida, mudar somente. Há no mundo um anjo imaginário em forma de mulher, só para mim. Começo a duvidar. Nesses mesmos momentos, quem me dera que fosse outro, não eu.

This is a happy end,

‘cos you don’t understand

everything you have done…

Why’s everything so wrong?

E o trombone soa feliz, apesar de tudo…

Um café, um pequeno bloco de folhas brancas com alguns desenhos, palavras de canções e escritos aleatórios de emoções estravazadas, em pequenos jactos de tinta negra, perfeita. Sinto-me no meu mundo, twisted and little, refúgio e pensamento de mim para mim mesmo.

Neste espaço rodeado de gente que convive alegremente e respira um momento pequeno de liberdade, também eu o faço comigo. Mas sinto-me ainda mais só, como quando passeio pela cidade, ouvindo apenas a música do meu mundo e tentando passar despercebido por entre as pessoas de sorrisos largos, frescos e luminosos.

Sinto alguma inveja de quem tem uma “cara metade”, seja lá o que isso for. Também gostaria de partilhar a minha realidade, encontrar para mim um espelho meu com o qual me pudesse rir das minhas imperfeições. Sozinho não lhes acho piada nenhuma. Estou com frio, estou frio, torno-me frio… sou frio, sou o frio.

Escrevo palavras de ruína, sempre, com alguma esperança e crença no seu poder catártico. Mas esse momento é apenas o instante de um piscar de olhos. Assim que termino, tudo desaba, sinto-me novamente perdido, irremediavelmente perdido, como uma personagem atormentada de um qualquer conto fantástico. Pensa Rita, em Matar a Imagem:

«Não pode existir loucura a dois.»

«Enquanto formos dois nenhum de nós está louco.»

Cabelos ruivos ondulados, a frescura da saia cai suavemente sobre as sandálias brancas que cobrem os pés pequenos. A silhueta elegante debruça-se sobre a janela e o seu olhar percorre a o entardecer lá em baixo, distraído.

Momentos antes, tinha-a visto entrar, leve e veraneante, a condizer com o calor que fazia lá fora.

Luminosa e vibrante, smiling at life…

Once…

Escrevia palavras disconexas ao som de uma voz feminina e um piano tenebroso, soando a história de um conto de fadas. Lia Ana Teresa Pereira e os seus amores estranhos. Coincidência, banda sonora perfeita naquele fim de tarde quente. Seres perdidos que se envenenam de amor, “a love that if bottled it would kill”…

Desesperadamente, a coisa que eu sou, até que a morte nos separe…