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Hoje quero escrever algo triste. Porque não acredito que haja sentimento mais verdadeiro que a tristeza, ou o medo da tristeza. Sim, o medo. A antecipação da tristeza. A antecipação do medo da tristeza. O instante antes disso. O instante que sufoca como se nos fosse matar para sempre. O momento imediatamente antes de vertermos a primeira lágrima, que inevitavelmente cairá desamparada no chão, sem que ninguém a tenha limpado do nosso rosto cansado. A lágrima acabará por secar, morrer e desaparecer por completo, mas não a imagem que dela ficou na nossa retina. E essa imagem será invariavelmente repetida infinitas vezes dentro e fora de nós, à nossa volta e em inúmeros bares quase vazios, casas desalmadas, jardins invernosos e irreais. Pomos então uma música triste a tocar, distante, enquanto deixamos os nossos pensamentos voar por entre ruínas envoltas em cortinas de nevoeiro, por entre sonhos estilhaçados como espelhos. A música longínqua é a banda sonora que cobre de piedade a nossa dor, os nossos gritos chorosos. Esta é uma verdade. Talvez a verdade mais real que existe, uma que nunca nos abandona, apesar de todos os momentos de felicidade que vivemos ou pensamos viver. Todos se podem identificar com este texto porque já todos sofreram, de uma maneira ou de outra. O mesmo já não se poderá dizer de um texto sobre a felicidade, infelizmente. A dor, o medo e a tristeza são intemporais. Acompanham-nos sempre, desde o nascimento até à morte… ainda que digamos, de tempos a tempos, que nada está perdido. Mas descubro com assombro que é preciso dizê-lo sempre, como uma oração silenciosa, como um encantamento mágico, como uma esperança secreta… e um sorriso simples nos lábios.

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2 Comments

  1. Muito bonitas estas palavras que tão simples expressam tão bem sentimentos tão cheios de alma e cor. ;)Continua…

  2. “They are, quite unconsciously, terrifying, they are sibyls, priestesses, queens of the night, they are frightened of themselves, they need a man to calm them and make them into friendly deities” – Iris Murdoch
    São assim os medos? E temos isto tudo dentro de nós?
    Não sei, mas sei que se fragmentam num sorriso, como tudo o resto q temos de sofrimento na nossa vida. So….
    …Smile on! 🙂


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