Monthly Archives: November 2007

Deolinda tem histórias para contar. Que sabem a fado, que soam a desventura cantada com um divertimento dançante. Deolinda está presente em cada conto e em cada nota, evocada pela arte dos quatro músicos que encheram o palco do Teatro Aveirense, ontem à noite, num concerto inserido no Festival Sons Em Trânsito.

Ana Bacalhau (voz), Zé Pedro Leitão (contrabaixo), Pedro da Silva Martins e
Luis José Martins (guitarras) dão corpo e música a Deolinda, personagem musical que nos traz um fado com muito sorriso puro. Foi com enorme surpresa que ouvi os primeiros sons ecoar aquando da primeira parte do concerto de Sérgio Godinho. À semelhança do músico português, Deolinda também tem histórias para contar: histórias de desamores, episódios quotidianos de alguém que já “tem idade suficiente para saber que a vida não é tão fácil como parece”. Tudo isto nos conta a sua breve biografia publicada no MySpace do grupo, paragem obrigatória para quem quiser saber mais sobre este projecto surpreendente.

Este é o modo como Deolinda, solteira, boa rapariga e cheia de música no corpo, tenta inventar um novo fado para a sua vida. Felizmente, essa vida também é a nossa e toca o nosso fado como não se ouvira antes. Este é mais um testemunho da vitalidade da música portuguesa, depois de Xaile. Tal como o projecto de “música planetária portuguesa”, Deolinda nasce das raízes tradicionais da nossa música e cresce à descoberta de outras sonoridades, através da fusão com outros estilos de música.

Deolinda nasceu em Lisboa, está à espera de gravar as suas histórias num primeiro álbum. Tal deverá acontecer em Dezembro. Por enquanto resta-nos visitar o seu espaço na Internet e a sua página no YouTube. Um dos vídeos que lá encontramos é uma espécie de apresentação oficial da banda, que conta com imagens e sons de alguns dos temas que preenchem o seu repertório. É esse mesmo vídeo que partilho aqui neste meu pequeno espaço, fazendo-o acompanhar da devida e merecida vénia. Votos de um sucesso enorme, Deolinda!…

Enjoy! ;o)

Em tempo de chuva, apresento-vos um poema dedicado a um acontecimento de invernal envergadura que todos os anos assola a sola dos sapatos mais incautos e enxarca e enxurra até o couro mais ordinário! Falo, claro está, do terrível flagelo que é o suicídio colectivo das gotículas de água, em relação ao qual as autoridades (in)competentes parecem não ligar “isto” (o gesto desejado será correctamente efectuado juntando os dedos indicador e polegar, ostentando bem alto a indignação física representada por este gesto de pura revolta)!…

O seguinte poema faz parte d’ A loja sincera, de Alexandre O’Neill

Chuva

(Que chatice esta chuva!)
Ora, a mim a chuva vai-me como uma luva.

(Enquanto não mudar a lua…)
Vai-me como a luva
que nunca uso.

Estriado de chuva,
já sou eu quem se escorre pela rua.

Vou como uma luva à rua.
(Enquanto não mudar a lua?)


Por outras ocasiões a chuva teria já atormentado o espírito do poeta, como no momento em que este decidiu sair de casa de seus pais, em 1946, após uma “discussão” caricata e aparentemente insignificante, que o autor por diversas vezes reproduziu:

“- Alexandre, leva o guarda-chuva.
- Não é preciso, pai. Não chove.
- Chove. Leva o guarda-chuva.
- Não é preciso, pai.
- Já te disse que levas o guarda-chuva.
- Não levo o guarda-chuva e nunca mais cá apareço…”