Adquiri há poucos dias um volume de poemas de Alexandre O’Neill intitulado “Anos 70 – poemas dispersos” (Assírio & Alvim, 2005). Ao folhear o livro na livraria, encontrei uma série de poemas “armados sob nome de Arthur Corvelo, o incompreendido d’A Capital“, como nos diz o próprio O’Neill , referindo-se ainda ao personagem-poeta de Eça de Queirós como “precursor do neo-almanaquismo”.
De entre estes poemas, seleccionei o poema “Ofélia”, que apresento aqui acompanhado de uma pintura do Pré-Rafaelita John William Waterhouse, que já tinha descoberto há tempos, graças ao meu relativamente meticuloso processo de “vasculhação ruínica”…
Ofélia
Cantando vai Ofélia pelo rio,
A caminho do nada – e não tem frio!
De flores coberta, ei-la morta de amor,
Olhos espelhando do céu o livor.
- Ofélia, ó triste, quem te segue empós?
- Um amor sobre-humano e um pai atroz…
- Cumpriste, não foi, teu dever de filha?
- E agora não sou mais do que uma ilha…
- De Hamlet a doideira acaso não temias?
- Doido por mim, fazia-me poesias…
O que mais temo, cá no outro mundo,
É o mano Laertes furibundo!
Tremo por Hamlet, meu Príncipe querido!
Temo Laertes, que é tão insofrido…
Eu não quero mais mortes, lá na Dinamarca.
Levo a minha a bordo – e não desembarca!
Assim se expressou, tristíssima, Ofélia,
Baixando a juzante, humanal camélia!
Alexandre O’Neill

(Ophelia, by John William Waterhouse - 1889)
Post singelamente dedicado à nossa Ofélia, que vai (en)cantando lá para lados do Rio Douro
)
