Monthly Archives: April 2006

Antes de me deitar, abro O Livro do Desassossego e descubro um texto que me interessa, intitulado Educação Sentimental. Este texto faz parte de uma série de escritos de maior extensão, colocados com o título de "grandiosos" e separados das outras reflexões relativamente breves e algo desconexas. É  um texto que inspira (e expira), e que pensa aspectos que devemos ter em conta na nossa educação sentimental. 

Eis o primeiro parágrafo do texto:

Para quem faz do sonho a vida, e da cultura em estufa das suas sensações uma religião e uma política, para esse, o primeiro passo, o que acusa na alma que ele deu o primeiro passo, é o sentir as coisas mínimas extraordinária e desmedidamente. Este é o primeiro passo, e o passo simplesmente primeiro não é mais do que isso. Saber pôr no saborear duma chávena de chá a volúpia extrema que o homem normal só pode encontrar nas grandes alegrias que vêm da ambição subitamente satisfeita toda ou das saudades de repente desaparecidas, ou então nos factos finais e carnais do amor; poder encontrar na visão de um poente ou na contemplação ou na contemplação dum detalhe decorativo aquela exasperação de senti-los que geralmente só pode dar, não o que se vê ou o que se ouve, mas o que se cheira ou se gosta – essa proximidade do objecto da sensação que só as sensações carnais – o tacto, o gosto, o olfacto – esculpem de encontro à consciência; poder tornar a visão interior, o ouvido do sonho – todos os sentidos supostos e do suposto – recebedores e tangíveis como sentidos virados para o externo: escolho estas, e as análogas suponham-se, dentre as sensações que o cultor de sentir-se logra, educado já, espasmar, para que dêem uma noção concreta e próxima do que busco dizer.

Boa noite a todos!

Descobri de novo O Livro do Desassossego. Coloquei-o na mesa de cabeceira. Faz agora parte da minha leitura nocturna,como um comprimido para dormir (com ou sem copo de água). Antes, tinha como medicamento um poema, todas as noites escolhido à sorte, de um qualquer livro de poesia, retirado da estante, bastante cheia de escritos de toda a espécie. E ainda lá tenho, em cima da mesa de cabeceira do meu quarto, o livro de poemas de Sylvia Plath…

Este livro, escrito por Bernardo Soares, semi-heterónimo (ou personalidade literária, como queiram) de Fernando Pessoa, é, como o próprio afirma, "a minha autobiografia sem factos, a minha história sem vida". É feita de pensamentos dispersos, alguns indecifráveis, outros incompletos. É um livro que eu sorvo aos poucos, pela hora em que o sono teima em chegar. E chega, acompanhado da leitura de palavras sofridas e descrentes, como estas que deixei que a sorte descobrisse:

(…) Viver parece-me um erro metafísico da matéria, um descuido da inacção. Nem olho o dia, para ver o que ele tem que me distraia de mim, e, escrevendo-o eu aqui em descrição, tape com palavras a xícara vazia do meu não me querer. nem olho o dia, e ignoro com as costas dobradas se é sol ou falta de sol o que está lá fora na rua subjectivamente triste, na rua deserta onde está passando o som de gente. Ignoro tudo e dói-me o peito. (…)

Fecho o livro e preparo-me para adormecer…

Tenho saudades dos dias preguiçosos. Tenho saudades. Sinto falta dos dias lentos, sentado a uma esplanada de um qualquer café. Peço algo para comer, para acompanhar a leitura descontraída de um livro já gasto – uma das inúmeras imagens que Ana Teresa Pereira insiste em matar em cada (última) história. Chega a torrada derretida em manteiga (sem mais nenhum adjectivo) e um refresco bem gelado. Sim, porque o Sol cai a pique e abrasa os sentidos todos (mas não mais do que a prosa que leio). A manteiga sabe bem no pão torrado, simetricamente dividido em seis pedaços. Religiosamente, guardo os dois pedaços do meio para o fim, como um ritual ancestral que não pode ser quebrado (como não se deverá nunca partir o espelho mágico de Alice).

O sabor destes dias é indescritível – se não o fosse, a nada saberia. Mas sei-o de cor na cor dos dias longos, como este que imagino. Várias pessoas passam. Apenas as vislumbro longínquas, como figurantes distantes de um filme. Relembram-me a realidade abandonada, em hora confusa e tortuosa.

Parti sem deixar aviso. Ficcionei-me, deixei-me preguiçar e apaguei-me, por fim. Só. Apenas eu. Dia calmo, necessário. Para quando?

Para quando?…